
O lançamento de HASOS, quinto álbum de estúdio de Baco Exu do Blues, marcou uma ruptura inesperada em sua discografia. Se Esú (2017) inaugurou a figura mítica de um artista em ascensão e Bluesman (2018) consolidou sua identidade política e estética, HASOS nasce justamente do esgotamento dessas imagens. É o álbum que pergunta: o que acontece quando a armadura do “super-homem negro” cai? Quando a força performada não é suficiente para sustentar o peso da história, do corpo, da mente?
A crítica sintetizou esse movimento ao afirmar que Baco “tenta se renovar no desalinho existencial e sonoro”. O próprio artista reforça a intenção: “Fiz buscando sofrer”, declarou em entrevista para a rollingstone, destacando que não queria que ninguém saísse ileso da experiência. Em vez de fórmulas de bem-estar, o álbum mergulha em traumas íntimos,abuso, solidão, rejeição, masculinidade ferida e os coloca no centro de um debate urgente: o autocuidado como necessidade política para pessoas negras.
O título do álbum é um anagrama da inscrição latina Humilitas Occidit Superbiam a humildade mata o orgulho”, frase gravada na espada de Davi na pintura Davi com a Cabeça de Golias, de Caravaggio. Baco encontrou ali não apenas estética, mas filosofia.
Na leitura do artista, a obra expõe a ambiguidade do vencedor que contempla a própria versão monstruosa. É uma metáfora perfeita para a transição de Baco: o rapper olha para si mesmo, mas não com soberba, com compaixão, cansaço e humildade. O orgulho, tão necessário para a sobrevivência do homem negro, torna-se também um cárcere. Abrir mão dele é arriscado, mas libertador.
O álbum abraça esse movimento por completo, a estética barroca do chiaroscuro, luz e sombra extremas, ecoa na mistura sonora que abraça trap, jazz, MPB, forró e experimentações caóticas. O resultado é deliberadamente quebrado, fragmentado, dispersivo. A desordem é método, não falha.
O álbum se recusa à linearidade, as faixas mudam de ritmo, tom e gênero de forma abrupta. A crítica percebeu a dispersão; Baco, porém, a defende como reflexo legítimo de uma mente em colapso e em tratamento.
A faixa Gladiadores de Areia faz essa escolha de forma explícita: um mergulho súbito no jazz dissonante, evocando Coltrane, que opera como metáfora sonora da primeira sessão de terapia, quando tudo parece explosivo, desconexo, doloroso.
As participações também ajudam a compor a ideia de caos coletivo. Vanessa da Mata, Teto, Sued Nunes, Zeca Veloso, IVYSON e outros convidados formam uma polifonia que afirma: ninguém se cura sozinho. Cada um desses artistas empresta um afeto, uma textura, uma possibilidade de linguagem que Baco sozinho não alcançaria e ele admite isso.
A crítica especializada aponta que HASOS confronta a “casca” que pessoas negras constroem para sobreviver à violência cotidiana. Essa proteção emocional, embora necessária, pode impedir o reconhecimento das próprias dores.
Em Interlúdio: Síndrome do Herói, Baco combate a expectativa de que o homem negro deve ser inabalável — o provedor, o forte, o resiliente absoluto. Essa idealização cobra caro. E o álbum propõe o oposto: admitir fragilidade, procurar ajuda, dizer “eu não estou bem”. Não há militância possível sem saúde mental.
Em Garçom da Ausência, a solidão aparece como vício e ferida. Em Deu Meia Noite, surge a revelação mais dolorosa: o trauma da violência sexual na infância, um tema que raramente recebe espaço dentro do rap e, sobretudo, na vivência masculina negra. Ali, Baco canta: “Virei monstro para não me assombrarem”. É uma confissão brutal e um convite para que outros também revisitem seus lobos.
As melhores faixas - de acordo com essa autora - que sustentam o principal manifesto desse álbum:
A faixa central do álbum toma como referência a Kalunga Grande, o oceano que engoliu milhões de vidas negras durante o tráfico transatlântico. Baco resgata Dorival Caymmi apenas para subverter o romantismo do verso “é doce morrer no mar”: para o artista, o mar é guerra, memória e dor ancestral.
Unindo Saint-Exupéry e Maquiavel, Baco descreve a força de quem se reconstrói após a queda. O herói aqui não é perfeito — é remendado.
A dissociação aparece como estratégia de sobrevivência: o “outro Baco” tenta mentir, performar, proteger. Mas a cura exige olhar o espelho, não fugir dele.
O sertão emocional é árido, mas o ritmo é dançante. É a prova de que o autocuidado também é festa, corpo e movimento, não apenas dor.
A estética do desalinho também funciona como crítica às narrativas ocidentais de coesão e “progresso linear”. A vida negra nas Américas não é linear; é feita de interrupções, descontinuidades, sobrevivências, improvisos. HASOS respeita essa verdade.
Ao abraçar a vulnerabilidade, Baco também desafia convenções do rap, gênero que historicamente valoriza a invencibilidade. O álbum assume riscos estéticos e simbólicos — e esse risco é justamente sua força.
As referências literárias e cinematográficas utilizadas pelo artista — de Jorge Amado a Glauber Rocha e Scorsese — transformam o projeto em algo próximo de um filme emocional, onde cada corte brusco é parte da narrativa.
A revolução possível começa pela cura
No final, HASOS consolida um novo momento na carreira de Baco Exu do Blues — menos heróico, mais humano; menos épico, mais íntimo. Ao abandonar a persona invencível, Diogo Moncorvo permite que outras pessoas negras se reconheçam, se curem e se permitam sentir.
Não é um álbum confortável, e ele não quer ser, ele é um álbum necessário.
A humildade mata o orgulho e, para Baco, talvez seja assim que começa a verdadeira liberdade.