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Martinho da Vila ganha homenagem no Grammy Latino

Assista “Semba Africano (Muadiakime / Semba dos Ancestrais)”

20/11/2021 às 19h32 Atualizada em 20/11/2021 às 19h36
Por: Miquel Souzza Fonte: Assessoria de Comunicação.
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Reprodução / Imprensa. - Brenno Medeiros
Reprodução / Imprensa. - Brenno Medeiros

Aos 83 anos, o cantor, músico, poeta, escritor e agitador cultural Martinho da Vila volta à baila com uma série de eventos envolvendo seu nome. Ontem, 17 de novembro, foi homenageado pela sua “Excelência Musical” no Grammy Latino, realizado em Las Vegas, em cuja cerimônia marcou presença. Hoje, além de concorrer na categoria Melhor Álbum de Samba e Pagode por “Rio: só vendo a vista” na premiação, é a vez da Sony Music lançar “SEMBA AFRICANO”, um medley de “MUADIAKIME / SEMBA DOS ANCESTRAIS” gravada em duo com sua filha caçula Alegria, a mais nova artista da família. Trata-se do quarto single de seu novo álbum “Mistura homogênea” que virá à baila, na íntegra, em fevereiro, um mês que promete, já que no carnaval 2022 a Unidos de Vila Isabel terá justamente seu maior baluarte como enredo. Antes disso, porém, ainda este mês, a Sony lançará um “lyric video” do clássico “Canta, canta minha gente” como forma de celebrar a homenagem no Grammy, sendo ele um dos artistas com maior número de títulos em seu catálogo.

Como se sabe, em paralelo à sua carreira de sucesso, Martinho foi lançando suas crias no meio artístico, como Mart’nália, ainda nos anos 80, Maíra Freitas, nos anos 2010, afora os outros filhos, todos de alguma forma ligados à música. Desta vez, é efetivamente a primeira vez que Alegria participa de uma gravação e de um clipe com o pai – diga-se de passagem, um clipe belíssimo, dirigido por Henrique Alqualo e Vanessa Anesi, gravado no Museu de Arqueologia de Itaipu, em Niterói (RJ), que chega às plataformas ao meio-dia do próximo dia 18 de novembro. O “SEMBA AFRICANO” é de fato uma homenagem às raízes africanas do cantor e compositor, na batida do “semba”, um ritmo angolano. Os primeiros versos da gravação trazem os dois cantando em quimbundo, uma das línguas mais faladas no noroeste do país. Na verdade, essa língua emprestou diversas palavras ao português falado no Brasil como “moleque”, “cafuné”, “quilombo”, “marimbondo”, “cochilar”, entre muitas outras.   

Ambas as canções do medley ele já havia gravado anteriormente, a primeira, “MUADIAKIME”, de Bonga e Landa, no LP “Presente” (77) e a segunda, “SEMBA DOS ANCESTRAIS”, dele em parceria com Rosinha de Valença, em “Criações e recriações” (85), em que remete ao ritmo/dança que anos depois ganharia no Brasil sua forma definitiva, o samba. Tudo isso só sublinha o fato de que sua ligação com Angola, especialmente Luanda, vir de muito longe. Em 2017 recebeu o título honorário de “Embaixador Cultural de Angola e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa” pela Boa Vontade da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), por divulgar a lusofonia e incentivar as relações linguísticas do nosso idioma. 

 

Trajetória ousada de muitos sucessos

As homenagens a Martinho da Vila vêm em boa hora. São mais do que justas e visam celebrar uma das carreiras mais longevas e bem sucedidas da história da música popular brasileira, e das mais ousadas dentro do próprio samba. Nascido em Duas Barras, interior do estado do Rio de Janeiro, Martinho José Ferreira chegou à capital sendo sargento do Exército, profissão que exerceu por 13 anos, indo morar no Morro dos Macacos, em Vila Isabel – cuja escola de samba adotada por ele em 1964 foi parar em seu próprio nome artístico. Isto não se deu à toa, pois em paralelo, já era compositor mesmo sem tocar qualquer instrumento e envolvido com pequenos blocos e escolas de samba desde adolescente. No final da década de 1960 ele já mostrava que não vinha para brincadeiras, pois prestou a seguir duas contribuições definitivas ao gênero que o consagrou.

Para começar, estilizou em disco o partido-alto (sambas com um refrão entremeados a estrofes na base do improviso), antes restrito ao ambiente interno das escolas. Isto é visível desde seus primeiros sucessos, ainda nos tempos dos festivais de música, como “Menina moça” e “Casa de bamba” – este estourado na voz de Jair Rodrigues e presente em seu primeiro LP homônimo de 1969 que emplacou quase todas as faixas, como os partidos “PRA QUE DINHEIRO” e “QUEM É DO MAR NÃO ENJOA”, além do crítico “O PEQUENO BURGUÊS”, nar­rando as agruras de um pobre ao entrar na universidade paga (“Felicidade, passei no vestibular / Mas a faculdade é particular...”).

Sua outra contribuição também já se fazia visível em seu álbum de estreia. É que Martinho deu nova forma ao samba-enredo, de maneira mais compacta que os antigos “lençóis” (sambas com muitos versos, contando de forma didática temas da história bra­sileira), numa linguagem mais coloquial, evitando termos pomposos, conferindo cadência rítmica mais dinâmica ao gênero. É o que ele pôs em prática em “IAIÁ DO CAIS DOURADO” (com Rodolpho), com o qual a sua escola havia desfilado naquele ano de 1969, e nos igualmente célebres “QUATRO SÉCULOS DE GLÓRIAS E COSTUMES”, “GLÓRIAS GAÚCHAS”, o subversivo “ONDE O BRASIL APRENDEU A LIBERDADE” e já em 80 o antológico “SONHO DE UM SONHO” (com Rodolpho e Tião Graúna).

Em paralelo, Martinho foi um dos responsáveis pelo próprio gênero samba voltar ao sucesso com força total nos anos 1970 e 80, após duas décadas em baixa. No seu segundo álbum, de 70, a faixa-título, “MEU LAIARAIÁ”, já testada no V Festival Internacional da canção, confirmava que ele vinha para ficar e suas inovações não pararam por aí. Foi o primeiro sambista a criar álbuns temáticos ano a ano e a exigir capas duplas em discos de samba, que até então normalmente ganhavam investimentos inferiores das gravadoras em relação a outros estilos musicais, assinadas por grandes artistas gráficos como Elifas Andreato. No repertório, seu timbre suave e confidente exaltou o samba e a alegria (“CANTA, CANTA MINHA GENTE”, “SEGURE TUDO”, “VAI OU NÃO VAI”, “BALANÇA POVO”), afugentou a dor (“SAMBA DA CABROCHA BAMBA”), falou do onipresente embate entre amor e boemia (“DISRITMIA”), de despedida (“NÃO CHORA, MEU AMOR”), negligência amorosa (“AMOR NÃO É BRINQUEDO”, dele com Candeia, que diz “Se quiser se distrair / Ligue a televisão / Amor, comigo não”) e criti­cou a invasão de música estrangeira no rádio (“OI, COMPADRE” [“mete o dedo na viola”]). 

Martinho também deu voz a seus ancestrais Donga e Mauro de Almeida (“PELO TELEFONE”, nosso primeiro samba de sucesso, do carnaval de 1917), João da Baiana (“BATUQUE NA COZINHA”), Monsueto (“TRIBUTO A MONSUETO”) e Silas de Oliveira (“AQUARELA BRASILEIRA”). Empurrou a carreira do compadre Monarco, até então um ex-feirante e contínuo, gravando “TUDO, MENOS AMOR” (dele com Walter Rosa), em 73; compôs um choro para sua rainha Ademilde Fonseca (“CHORO CHORÃO”) e jamais esqueceu temas caros à negritude, inclusive de religiosidade afro, como “DEIXA A FUMAÇA ENTRAR” e o famoso pot-pourri com “FILHO DE ZAMBI”, “SETE FLECHAS” E “VESTIMENTA DE CABOCLO”. Ousou falar de sensualidade e sexualidade como nunca antes no samba nos deliciosos “COISA LOUCA”, “QUERO, QUERO”, “MANTEIGA DE GARRAFA” e “VIAJANDO”, antecipando em três décadas tais temas onipresentes no pagode contemporâneo.

Na década seguinte, de 80, continuou emplacando hits como autor (“EX-AMOR”, “RECRIANDO A CRIAÇÃO”, “PRA TUDO SE ACABAR NA QUARTA-FEIRA”, “CORAÇÃO DE MALANDRO”, este com Gracia do Salgueiro; além das críticas sócio-políticas de “Pensando bem” e “Balaio de gato e de rato”, este com Cabana) e intérprete (“NA ABA”, do repertório inicial de Bezerra da Silva, “PAGODE DA SAIDEIRA”, do referido Gracia com Duque do Surdo), além de adaptar o tema “MADALENA DO JUCU” das Bandas de Congo da Serra de Duas Barras em 89: “Madalena, Madalena / Você é meu bem-querer / Eu vou contar pra todo mundo / Que o que eu quero é você...”.

Nos anos 1990, resgatou o velho sucesso de Oswaldo Nunes “SAMBA DO TRABALHADOR” (Darcy da Mangueira) e chegou à marca de 1,5 milhão de cópias do CD “TÁ DELÍCIA, TÁ GOSTOSO”, em 95, a bordo de quatro grandes hits: a faixa-título (Zé katimba/Alceu Maia), “MULHERES” (Toninho Geraes), “DEVAGAR, DEVAGARINHO” (Eraldo Divagar) e “CUCA MALUCA” (Gracia do Salgueiro), superando Agepê, até então o único sambista a bater 1 milhão, na década anterior.  

Com uma discografia imensa à beira dos 50 álbuns, quase todos gravados em selos que pertencem hoje à Sony Music, é possível perceber que Martinho da Vila jamais se acomodou. Fez parcerias com compositores e intérpretes dos mais diversos nichos musicais, flertou com a cultura dos países lusófonos e até gravou versões de seus sambas em outras línguas, isto fora o fato de que decidiu voltar às salas de aula cursar Relações Internacionais em 2017, à beira dos 80. Por essas e outras o samba-enredo da Vila que o homenageia no próximo carnaval diz: “Em cada verso, mais uma obra-prima / Ousar, mudar e fazer sem rima (...) Profeta, poeta, mestre dos mestres / África em prece, o “griô”, a referencia / O senhor da sapiência, escritor da consciência / E a cadência de andar, de viver e sambar”. Uma salva de vivas a Martinho, um artista da maior integridade que jamais traiu seus ideais.  

     

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